13 de jan. de 2010

CUIDADO.



Às vezes falamos coisas sem o mínimo sentido, talvez por não nos preocuparmos com o efeito das palavras, faltando às vezes um pouco de espírito e em outras situações percepção e critério.
“Cuidado com a bala perdida” foi à última frase que falei a um casal de amigos que estava saindo para o Rio de Janeiro. Após caminhar algumas quadras escutando umas boas melodias nos meus fones, pensei em meio aos devaneios que a música me leva a ter, o quão sem fundamento foi minha despedida. O aviso de nada ajudaria na precaução da violência urbana, já que se cuidar de uma bala é quase impossível, imaginem de uma que saiu com destino, mas sem código postal. Apenas deixei uma “pulga atrás da orelha” dos viajantes e quem dera tenha faltado atenção a eles na hora da deixa.
Ao mesmo tempo existem frases típicas de nossa brasilidade como: “os últimos serão os primeiros” típica colocação de conforto a perdedores. Mas outro dia, vivenciei uma situação que fez relevante estas palavras.
Estava embarcando para Santa Terra dos Mergulhões dos Palmares na minha milésima jornada com a família Fonseca, e como sempre no embarque formou-se a tradicional fila para acomodar as bagagens, eu, como estava atrasado fiquei para o fim. Fui o último a sentar, mas o mais rápido a encontrar o acento, que era bem na frente e desta vez eu comprei a passagem, pois era a que tinha*.
Nas intermináveis três horas e quarenta e cinco minutos, - assim mesmo, escrito, para que o texto fique tão grande quanto à imensidão do caminho de casa - que tentei dormir em meio a “buenas te logo” e “ iiiihhh tudo lindo? como vás?”; achei o conforto para a minha ansiedade de cruzar o fabuloso e conservado pórtico da entrada de meu útero, no fato de o cobrador suavemente atirar as primeiras bagagens para o fundo e eu, contrariado, estar de novo viajando na frente.

*leia o texto abaixo

Felipe Campal

19 de nov. de 2009

STARTAC BOLACHÃO.



Como não fui eu que comprei a passagem desta vez, fui na poltrona 7 , na segunda fileira, até que é bem confortável pois os bancos da frente ficam mais embaixo e consigo espichar os 1,83 cm, mas pela minha superstição de comprar lugares mais atrás, não estava 100% seguro. Da onde estava via tudo que o motorista fazia; os caminhões se aproximando, a chuva cada vez mais forte, via uma moça na fileira a esquerda também sentada na janela olhando de canto de olho a cada vez que eu espiava a revista do passageiro da frente, não via muito mais coisas até porque estava na poltrona 7 e não estava afim de ver nada. Passado um tempo peguei um livro, li um ou dois contos, e ai:
- Eu coloquei na lavadora, é só esperar terminar a centrifugação e pendurar... ahhhh minha filha eu já estou no ônibus....
Parei meu conto é claro, voltei umas linhas para retomar o raciocínio e continuei enquanto minha dupla de viagem já respirava fundo ensaiando uma sinfonia que faria meus nervos ficarem um pouco mais apreensivos, por sorte foi apenas ensaio, até por que:
- Bahhhh meu! , já estou em Porto Alegre (mal tínhamos saído da rodoviária de Pelotas), to indo pra Brasília hoje, só volto segunda... certo ... certo... segunda passo ai.
Mas que merda temos eu e os outros quarenta passageiros a ver com a vida da senhora que tem uma filha mimada e do cara de cabelo lambido que esta indo para Brasília pela primeira vez?
Nada, é claro, mas o tempo em que precisávamos mostrar que compramos um celular já era, o “Startac Bolachão” virou acessório de fantasia, ganhamos celulares, eles dão cria se proliferam, tiram fotos, fazem vídeos, acessam a internet, mas no fundo são todos a mesma porcaria. Ahhhh e falando nisso o meu toca música:
“...e a loucura finge que isso tudo é normal, eu finjo ter paciência... “

Felipe Campal

17 de nov. de 2009

NO FIM DA AREIA.



Acordou, estava com 80 anos, perguntou à senhora que estava a seu lado:
- O que houve?
- Ué, como o que houve? Você acaba de acordar, oras!
- Como assim? Mal consigo levantar meus braços. Olha só estou todo enrugado, sem pêlos.
- Que isso meu amor! Você esta igual que nos últimos 10 anos.
- Meu amor! Você disse meu amor?
- Sim qual o problema? Repito isso a 57 anos, e você nunca reclamou.
- Saia daqui sua velha nojenta, vai curar esse mau hálito dos diabos, e não me venha com “meu amor”.
- Mas o que houve com você, meu velho? Porque tanto espanto e indignação?
- Acabo de acordar este é o problema, e o pior, acordei aos 80 anos do lado de uma velha de sabe-se la quantos anos, sem lembrar da metade das coisas que fiz nesses últimos tempos. Lembro-me de acordar, comer, trabalhar, escrever, fumar, beber, ir aos mesmos lugares, comer as mesmas coisas do menu , falar dos mesmos assuntos com as mesmas pessoas chatas e cínicas, transar, broxar, e dormir, dormir para não acordar.
- Ahhh vá se fuder seu velho de merda, e não se esqueça de colocar água para o mate, pegar o jornal e regar as plantas.

Felipe Campal

12 de nov. de 2009

REBELDIA É MEU NOME.



“Rebeldia é meu nome” gritava o galo cinza para si mesmo, contra uma parede, em um poleiro vazio, acuado, nervoso por novas batalhas. Ali se via preso em um cativeiro sentimental complicado de explicar, apreensivo pela liberdade dos rebeldes.
“Liberdade é meu nome” gritou o galo cinza na última vez que a viu, saiu, perdendo-se na mata, atirado a sorte do mundo, como sempre quis.
“Rebeldia é meu nome” escutava-se ecoar na selva escura e calma naquela noite. Perdeu-se o galo cinza, perdeu-se entre o tempo e que ficou.
“Liberdade é meu nome” sussurrava o solitário galo cinza, agora tendo encontrado a si mesmo, na calmaria de sua consciência.
Felipe Campal

5 de nov. de 2009

A CRUZADA DE DEMÊNCIO


Na sala ao lado, Demêncio de Alguma Coisa, sozinho chegou por volta das dez da noite, devagarzinho sem ninguém percebê-lo ficou ali em silêncio, solitário Demêncio. Fui vê-lo, pois o frenesi era tanto em descobri-lo, que não me contive. Ali estava; baixote, troncudo, pele escura, cavanhaque bem aparado, aparência singela de quem esta em paz, liso e alinhado; como se viesse direto do Madame Tussauds.
Seu primeiro companheiro apareceu mateando por volta das duas da madrugada, agora eram dois solitários, um ele Demêncio, o outro, o do mate, cada um em seu mundo conversando através das lembranças e esperando, esperando, esperando...
Eu ali na sala ao lado, travando uma cruzada contra o sono, escutando histórias do passado, e concluindo que quando a espera é longa o fim é natural. O fim que todos queremos é a única coisa que gostamos de esperar, esperar, esperar...

Felipe Campal

15 de set. de 2009

FAROFA DE VÊNUS.



“Quando efa febre pafá...”

Uma das frases que me chamou atenção no Jornal Nocional de hoje (15/09/2009), junto à notícia de que a mulher do primeiro ministro japonês foi abduzida por Et´s e que sua alma foi levada para Vênus enquanto seu corpo dormia, ao chegar, observou que o planeta era verde; além disso diz ter conhecido Tom Cruise em uma outra encarnação, quando ele fora japonês.
Miyuki Hatoyama de 62 anos, conseguiu roubar a cena em meio a notícias que não lembro de que se tratavam precisamente, mas que eram sobre nosso governo, esporte e afins.
Realmente esta japinha vive em um "mundo" onde muitos gostaríamos de viver, perante o fato de termos um presidente que jamais poderá comer farofa em público. Hehehehehehehhehe e esta tudo resolvido.

Felipe Campal

13 de set. de 2009

FOI-SE O TEMPO.



“Envelhece pior, quem pensa e se preocupa mais com o assunto”.

Por que motivo a maioria dos seres se preocupa em quebrar a ordem natural das coisas, ou pior ser a própria aberração da naturalidade humana?
Uma onda inexplicável paira diante da sociedade mais “abençoada”, mas não mais culta: A preocupação incessante com o passar dos anos. O fato de que devemos retroceder cronologicamente em nossa forma exterior, aliena e camufla o verdadeiro motivo pelo qual os anos passam. Não percebemos o mundo de forma verdadeira e plena, quando necessitamos a todo tempo um “espelho, espelho meu...”, doamos todos os minutos a nosso próprio ego, sem ao menos saber o efeito que isso pode causar ao fim das contas.
A verdade é que não sei o porquê dos anos passarem, mas com certeza, com o corpo velho e a alma lúcida, gozarei de nunca ter tido esta preocupação, pois me interessa mais o que vejo dentro do espelho.
Que sejam bonitos os que assim nasceram, e que a feiura seja apenas um argumento de vendas!

Felipe Campal

10 de set. de 2009

É ISSO E.



Que dificuldade em tirar algo desta cartola, enquanto o corpo pesa mais que nossa consciência em dia confuso e decisivo.
Que desanimo, nos trás a imunidade baixa de nossas pálpebras quase fechadas, parecendo as bochechas de um velho buldogue.
Que nostalgia escutar um tango eletrônico para animar a neblina da alma, a beira de uma lareira artificial.
Que ansiedade, é esperar a beira da indecisão de não saber o que vai acontecer, mas com a certeza de que como esta não vai ficar.
Que bobagem é dizer, que tudo começa no inicio, que o meio é sempre a parte menos vista enquanto o fim é o que mais interessa.

Felipe Campal

2 de set. de 2009

BALANÇA DOS ANOS.


Estranho estar na fila do Buffet com fome reclamando em silêncio de um senhor que demora a se servir pela indecisão de seus anos. Parei um instante meu olhar em suas enrugadas mãos e reparei que tremiam muito como se estivesse tendo um ataque cardíaco ou qualquer coisa do gênero, frio não era, em agosto não faz frio. Mas em alguns segundos percebi que ele não só tremia, mas sim via o mundo pelo balançar de sua doença.
Almocei, e não conseguia parar de olhar para o senhor, daria para almoçar quatro vezes enquanto ele terminava a salada. Fiquei ali tentando entender se seus sentidos ainda funcionavam perfeitamente, principalmente sua visão, de que forma o mundo esta se apresentando, que sensações sente este senhor. Percebendo minha indiscrição, continuou a comer, apenas comeu e eu continuo a pensar uma forma de como manter o controle, não podendo ter controle do que esta descontrolado.

Felipe Campal

5 de jun. de 2008

SERES AGORA COM CHIP.

Não fizemos a mínima idéia de quantas informações nosso cérebro processa por segundo, dentre elas, a enorme quantidade de dados que não podemos esquecer e pensar, os quais são as chaves para nossa existência, mas isso é óbvio a todos os seres que refletem sobre como existimos. O que relatarei abaixo é algo que me intriga há algum tempo e que ontem minha mente expulsou de mim, transformando nas idéias que agora descrevo.
Dia 4 de junho, mês 6 no calendário, exatamente às 13 horas e 15 minutos, entro em uma agência do “Banco do Felipe” para retirar uma segunda via de meu cartão, agora com chip, pego uma ficha com o número 8031, que me dava direito de ser atendido nas mesas de número 06 a 10, porém ao subir no piso número 2 percebo que a retirada de cartões se dava no caixa de número 1, ali o fiz, mas antes respondi algumas perguntas, tais como o número de minha conta e agência, os quais sabia de cérebro. Passada a etapa de perguntas o rapaz me informa que devo desbloquear o novo cartão em um dos caixas do piso de número 0, ou térreo. Insiro o cartão, escolho as opções e chego a uma etapa em que dependo apenas de meu cérebro - a senha - sem problemas identifico o teclado e a digito até mesmo sem visualizar os números, rápido, menos de 2 segundos entre raciocínio e ação, essa última que se daria em mais tempo caso o teclado fosse em outra posição; logo após, as letras, essas sim, perdidas na tela entreverando minha mente jovem, fazendo os ocupantes da fila pensarem que sou lento, retardado ou algo assim, mas enfim, cartão desbloqueado e agora com chip.
Chegando em casa, acesso a internet, como de praxe entro em meu e-mail, antes disso é claro a senha, essa sim composta de letras ou números. Sigo minha viagem cibernética entrando em vários lugares que me dão acesso também através de senhas, chegando novamente ao “Banco do Felipe”, e agora é que são elas, número da conta, número da agência, e para piorar, uma nova senha de 8 dígitos, que mais uma vez sei de cérebro.
Quantos cadastros já fizemos e tivemos que relatar ou ver em nossa identidade nosso número de RG e CPF, sem contar com outros vários números que nos identificam como cartão de crédito, título de eleitor, telefone, e por ai vai. Todos esses constam em algum documento que acaba por engordar sua carteira, mas senhas, números e letras apenas nosso cérebro deve saber, pois muitas vezes se torna inseguro escrevê-las.
Não tenho conhecimento sobre o que a tecnologia esta propondo ou irá propor para que possamos parar de depender da boa vontade de nossa memória. Já assistimos a muitos filmes em que pessoas se identificam através de chips implantados em seus dedos, cérebro, orelha, etc. Isso pode parecer uma utopia, mas acredito que num futuro próximo, poderemos sim, sermos “fulanos de tal agora com chip”.
Quanto ao filme acima, assisti há alguns meses e não lembro bem a história, apenas recordo que fala sobre a obsessão pelos números, essa que se torna dependência a partir do momento em que necessitamos pensar incessantemente na multiplicação, divisão, soma e redução dos mesmos. Assim somos, máquinas humanas controladas por números, senhas e talvez chips.

Felipe Campal